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RDC 665/2022: as Boas Práticas de Fabricação para produtos para saúde

Para fabricar dispositivos médicos no Brasil, BPF não é diferencial — é piso. A RDC 665/2022 consolidou e modernizou os requisitos, alinhando o país a padrões internacionais.

O que a RDC 665 substitui

A RDC 665/2022 revoga e substitui a RDC 16/2013, modernizando regras de Boas Práticas de Fabricação (BPF) para dispositivos médicos no Brasil.

A nova norma se alinha melhor a:

  • ISO 13485 (sistema de gestão da qualidade para dispositivos médicos)
  • FDA QSR (Quality System Regulation, EUA)
  • EU MDR (Medical Device Regulation, UE)
  • MDSAP (Medical Device Single Audit Program)

Os pilares da BPF para dispositivos

  1. Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) documentado e auditável
  2. Gestão de riscos integrada (ISO 14971)
  3. Controle de projeto e desenvolvimento
  4. Controle de fornecedores com qualificação técnica
  5. Validação de processos
  6. Controle do produto (especificações, identificação, rastreabilidade)
  7. Manutenção e calibração de equipamentos
  8. Controle ambiental quando aplicável
  9. Gestão de recursos humanos (qualificação, treinamento)
  10. Gestão de mudanças controlada
  11. Auditoria interna com plano definido
  12. CAPA (Corrective and Preventive Action)
  13. Pós-mercado integrado com tecnovigilância
  14. Análise crítica pela direção
O peso da rastreabilidade

Dispositivo médico exige rastreabilidade ponta a ponta — do insumo ao paciente. UDI (RDC 591/2021 → 884/2024) é parte do sistema. Fabricante sem rastreabilidade lote-a-lote NÃO PASSA na inspeção.

Diferenças relevantes da RDC 16

  • Maior alinhamento internacional — facilita exportação e harmonização
  • Foco em gestão de riscos ao longo do ciclo de vida (não só no produto final)
  • Validação de software explicitada (incluindo software como dispositivo médico — SaMD)
  • Requisitos pós-mercado mais robustos
  • Documentação eletrônica explicitada

Aplicação por classe de risco

  • Classe I: requisitos básicos, autodeclaração possível em alguns aspectos
  • Classe II: BPF completa, inspeção periódica
  • Classe III e IV: BPF rigorosa, CBPF obrigatório, inspeções mais frequentes

CBPF — Certificado de Boas Práticas de Fabricação

A inspeção da ANVISA gera o CBPF, com validade de 2 anos. Renovação por nova inspeção. Empresa sem CBPF vigente não pode:

  • Registrar produtos novos
  • Manter alguns registros vigentes
  • Exportar para mercados que exigem comprovação

Como se preparar para a inspeção

  1. Auditoria interna prévia — diagnóstico real
  2. Documentação organizada — POPs, registros, certificados
  3. Treinamento da equipe envolvida
  4. Calibração em dia
  5. CAPA com cases reais e fechados
  6. Rastreabilidade demonstrável ponta a ponta
  7. Tour guiado preparado mas honesto

Para importadores

Mesmo importadores precisam que o fabricante estrangeiro tenha BPF reconhecida pela ANVISA — diretamente (CBPF) ou via equivalência (FDA, EU notified body, MDSAP).

Conclusão

RDC 665 é evolução, não revolução, da BPF brasileira para dispositivos médicos. Empresas com sistema robusto se adequam com ajustes; empresas com sistema fraco precisam reestruturar. Quem opera no segmento sem BPF auditável tem dias contados.